sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Samuel Gonçalves: o niteroiense fala sobre a experiência de vencer a regata Cidade do Cabo-Rio

Samuel Gonçalves, velejador do Projeto Grael, no leme do barco City of Cape Town, vencedor da regata transoceânica Cidade do Cabo - Rio.

SAMUEL GONÇALVES


A histórica regata oceânica entre a África do Sul e o Brasil, Cape to Rio, completou 40 anos e nós temos motivos de sobra para comemorar. Pela primeira vez, uma equipe composta por maioria brasileira, vence a competição. Os niteroienses: Samuel Gonçalves, 23 anos, Allan Tavares, 18 anos, Hallan Batista, 22 anos e Alex Sandro Mattos, 21 anos, frutos do Projeto Grael, competiram em um veleiro de 41 pés da Marinha Africana juntamente com três sul-africanos e cruzaram o Oceano Atlântico durante 17 dias em alto mar.

Em uma entrevista exclusiva para a Revista Trela, Samuel Gonçalves, que além de velejador, estuda Desenho Industrial na UFF, falou sobre a experiência vivida ao lado dos companheiros, a beleza da África e a emoção da vitória.

Em primeiro lugar, parabéns!

Estamos muito felizes com essa conquista inédita para o Brasil. A ficha está caindo aos poucos. Estamos sentindo a grandiosidade desse feito quando as pessoas nos parabenizam e perguntam sobre a travessia.

Como surgiu o convite para participar da competição?

Em 2010, John Martin, um dos organizadores do evento, veio conhecer o Projeto Grael e propôs ao Axel Grael que montassem uma tripulação com alunos e ex-alunos do projeto. Como o tempo era curto, e a logistica a ser feita muito grande, escolheram quatro ex-alunos para integrar uma tripulação sul-africana e eu fui um dos escolhidos.

Sete profissionais fizeram parte da equipe. Qual era a função de cada um?

Creio que ainda não somos profissionais já que nossa renda não vem do esporte da vela. Estamos trabalhando para isso ocorrer um dia. Os sul-africanos foram três: Gerry Hegie, comandante e navegador; Michael Robb, trimmer da vela de proa e Duncan Matthews, trimmer da vela mestre. Dos quatro brasileiros, Alex Sandro era responsável pela proa, Hallan pelo mastro, Allan pela secretaria e eu era watch capitan.

O barco partiu da África para o Brasil. Quantos dias antes da partida vocês ficaram no país e como foi esta experiência?

Nós saímos do Brasil no dia 1º de janeiro, chegamos no dia 2 e a largada da competição foi no dia 15. Durante estes 14 dias na África, conhecemos os sul-africanos e terminamos de ajustar e preparar o barco. A Cidade de Cape Town é muito bonita. Fomos ao Cabo da Boa Esperança onde há o encontro do Oceano Atlântico e o Índico. Fomos também a Table Mountain, cartão postal e símbolo da cidade.

Como se comunicaram durante o percurso?

Os tripulantes sul-africanos só falavam inglês e eu era o único que falava os dois idiomas. O interessante é que quando se sabe velejar, a língua facilita, mas não é fundamental. Sabíamos o que tinham que ser feito na hora certa e então tudo fluía bem. Com o passar do tempo os sul-africanos aprenderam palavras de comando em português, assim como os brasileiros aprenderam as ordens em inglês. No final deu tudo certo.

Você é um atleta apoiado pela academia R1 Fitness. Como você se preparou fisicamente para o campeonato e qual a importância deste treinamento?

Tenho muito a agradecer a R1 Fitness. Para todo atleta a preparação física é fundamental, já que nosso corpo é a ferramenta de trabalho. Na R1 Fitness encontrei profissionais capacitados para me dar o suporte necessário para cruzar o Oceano Atlântico sem lesões ou dores musculares. Quando entrei no barco na África do Sul com destino ao Brasil, eu sabia que estava físicamente preparado para essa empreitada que durou 17 dias e algumas horas.

Você voltou com uma barba que não tinha. Em alto mar que dificuldades enfrentaram com relação a cuidados pessoais?

Tomávamos banho com água do mar, aplicávamos um shampoo e em seguida, a toalha para tirar o sal. Para escovar os dentes usávamos água potável.


Acompanhados por su-africanos, a tripulação do Projeto Grael visitou o Parque Nacional de Table Mountain, nas proximidades da Cidade do Cabo. Foto: Arquivo pessoal de Samuel Gonçalves.

Você perdeu 8 Kg durante o trajeto. Como era a rotina de alimentação e trabalho?

A alimentação era basicamente comida desidratada, macarrão e arroz. Durante a travessia dividimos a tripulação em duas equipes, os sul-africanos e os brasileiros, em função do idioma. Os turnos eram de três em três horas. Três horas velejando duro, regulando as velas e fazendo trocas quando necessário, e nas três horas de descanso, usávamos para preparar a nossa comida, ir ao banheiro, trocar de roupa, descansar um pouco e fazer uma manobra ou troca de vela. Todos os tripulantes eram convocados para atuarem juntos, então, mesmo no nosso tempo de descanso trabalhávamos em manobras.

Qual foi o momento mais preocupante da regata?

Não digo preocupante, mas tenso em duas situações. Uma em que o vento estava inconstante, e no período de 1h às 5h da manhã fizemos 15 manobras entre trocas de velas e jibes. Em outro momento, quando estávamos perto da chegada, o vento acabou e ficamos praticamente parados cerca de duas horas, a poucas milhas da linha de chegada.

Em que momento a sensação de vitória começou a ser real para você?

Como os barcos dessa competição não são iguais, eles passam por uma medição e recebem um certificado. O nosso dizia que tínhamos que chegar dois dias na frente de um determinado barco, que poderia tirar o nosso primeiro lugar. Esse barco só chegou três dias depois do nosso, então quando os dois dias se passaram é que eu pude relaxar um pouco mais e a ficha começou a cair.

Durante a viagem você fez anotações importantes sobre cada dia. Pretende lançar um livro sobre esta experiência?

Um livro é algo que eu gostaria de fazer em minha vida, mas acho que tenho muito ainda pela frente. Na hora certa, coloco essa idéia em prática.

E agora quais são os próximos projetos em relação ao esporte? Você ainda está sem patrocinador?

Entre os dias 21 e 27 de fevereiro, vou à Florianópolis participar da Semana Brasileira de Vela Olímpica, onde será definida a equipe que representará o Brasil no ano de 2011 com o apoio da Confederação Brasileira de Vela. Ainda estou engatinhando para as Olimpíadas, mas é um sonho que estou correndo atrás. Ainda não tenho patrocinador, mas, se conseguir outros parceiros como a R1 Fitness, estarei bem mais preparado para uma Campanha Olímpica.

Que lembrança principal você vai guardar de tudo isso?

O trabalho de equipe, o foco e a determinação de sete jovens, brasileiros e sul-africanos, que se conheceram poucos dias antes de uma competição que mudou suas vidas.

Fonte: REVISTA TRELA

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