quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

EM ENTREVISTA À FOLHA DE SP EM 1977, O AMBIENTALISTA PAULO NOGUEIRA NETO ALERTOU PARA A CRISE DA ÁGUA


PAULO NOGUEIRA NETO

O professor Paulo Nogueira-Neto é uma das mais importantes referências para mim.

Foi após uma conversa com este pioneiro do movimento ambientalista e da política ambiental pública no Brasil, que me decidi por seguir a carreira de engenheiro florestal e me dedicar ao ambientalismo.

A conversa foi em Brasília, na acanhada sede da recém criada Secretaria Especial do Meio Ambiente - SEMA, na década de 1970, quando eu ainda era adolescente e definia para que carreira eu faria o vestibular.

A SEMA foi o órgão ambiental pioneiro do país, criado logo após a Conferência de Estocolmo, quando a diplomacia nacional defendeu a posição que no Brasil as empresas poluidoras eram bem-vindas pois precisávamos nos desenvolver!

Praticamente sem estrutura e com pouco apoio e respaldo político no governo federal, Paulo Nogueira Neto teve a sabedoria de trabalhar com o que tinha e buscar os escassos apoios onde eles estivessem. Encontrou apoio em alguns estados, justamente os que mais poluíam: RJ, SP e MG, além de SC. Foi nessa aliança, construída com raros interlocutores sensíveis à causa ambiental que surgiram os primeiros órgãos ambientais do país: FEEMA (RJ) e CETESB (SP). Nascia aí o embrião do SISNAMA, o Sistema Nacional do Meio Ambiente.

Me lembro muito bem daquele encontro. O Dr. Paulo Nogueira Neto falou dos desafios ambientais das décadas pela frente. Meu pai perguntou: "Mas, o Sr. acha que engenharia florestal tem futuro?". A resposta foi: "Futuro tem. Não tem ainda é presente. Se você acredita no futuro, siga em frente".

Suas palavras fizeram um velejador, mas neto de um farmacêutico (na época que meu avô Romão Grael exercia o seu ofício no interior de São Paulo, farmacêuticos eram praticamente botânicos), decidir ser engenheiro florestal. Lembro que sempre que eu falava com amigos sobre a minha decisão, tinha que explicar o que era a tão desconhecida profissão.

Em 1977, ano que ingressei no curso de Engenharia Florestal, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Paulo Nogueira Neto dava a entrevista que resultou na matéria da Folha, que o texto abaixo se refere.

É importante contextualizar a corajosa atitude do líder ambientalista. As palavras de alerta de Paulo Nogueira Neto foram proferidas numa época de ditadura militar, de forte influência desenvolvimentista e quando ainda havia uma percepção de inesgotabilidade dos recursos naturais. Na época, a população de São Paulo e da maioria das cidades brasileiras era ainda uma fração do que temos hoje. Ainda assim, enxergou longe!

Manifestações como a dele eram mal compreendidas e consideradas alarmistas e os defensores de tais ideias eram considerados inimigos do progresso e do desenvolvimento. Tempos depois, passaram a chamar ambientalistas como ele também de "ecochatos".

Pois bem. A realidade está ai para mostrar que a falta de ouvidos para o alerta do ambientalista nos trouxeram exatamente para a crise que ele antecipou.

E a falta de prudência e a falta de atitude para a transição para uma sociedade sustentável continuam a nos empurrar para outras crises e outras tragédias ambientais. Aliás, tragédias ambientais ou tragédias humanas...?

Quando começarão a ouvir os ecochatos?

Axel Grael



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Um alerta de 1977 para a crise da água

Paulo Nogueira Neto, ex-professor da USP e ex-secretário especial do Meio Ambiente do Governo Federal entre 1974 e 1976, e entrevista ao Canal Brasil, em 2012.


Maurício Tuffani, Folha de São Paulo, Blogs
 
“Água de São Paulo está no fim, diz Nogueira Neto” foi o título de uma reportagem da Folha há 37 anos. A matéria, na edição de 25 de maio de 1977 (Primeiro Caderno, pág. 12), noticiava o alerta de Paulo Nogueira Neto, professor de ecologia da USP e titular da Sema (Secretaria Especial do Meio Ambiente), do governo federal, que comandou de 1974 a 1986.
 
Nessa reportagem, o então secretário federal destacou São Paulo e Belo Horizonte como “exemplos típicos de má utilização da água doce” no Brasil. Ele afirmou que as duas cidades deveriam “cuidar urgentemente da preservação de seus recursos hídricos”, ressaltando que a situação da capital paulista era “particularmente delicada”, pois os mananciais que a abasteciam já naquela época seriam posteriormente necessários para atendimento à região metropolitana que começava a se formar em Campinas. E acrescentou:
 
“E, talvez, antes do final do século, São Paulo terá que se abastecer com água transportada do vale do Ribeira.”


Reportagem da Folha de 27 de maio de 1977. Imagem acervo Folha/Reprodução.

 
Omissões
 
Passados esses 37 anos, São Paulo nunca adotou uma política para uma verdadeira utilização racional de seus recursos hídricos, não impediu nem reverteu a invasão e o adensamento populacional de áreas de proteção de mananciais e teve resultados pífios na redução do elevado nível de perdas de água no seu próprio sistema de distribuição.
 
Para agravar ainda mais esse quadro, o governo de São Paulo não realizou as obras do sistema de produção São Lourenço (SPSL) para a entrada em operação a partir de 2015, prevista desde a década passada. Os riscos desse atraso não só para o abastecimento da metrópole, mas também para a integridade dos sistemas Guarapiranga e Cantareira foram previstos também no estudo de impacto ambiental elaborado em 2011 para o São Lourenço.
 
 
“Caso o SPSL nem outro novo sistema produtor sejam implantados, o cenário prospectivo é de déficits crescentes no Sistema Integrado, e a permanência ou piora da regularidade de abastecimento nas zonas oeste, sudoeste e norte/noroeste da metrópole, (…) e maior stress no uso dos Sistemas Guarapiranga e Cantareira. (…) Os reservatórios tenderão a operar com menor volume de reserva e, ocorrendo condições hidrológicas desfavoráveis (não necessariamente críticas), a possibilidade de um colapso no abastecimento será maior, e o esquema de rodízio deverá ser adotado de modo generalizado na metrópole.”
 
Mais do mesmo

No entanto, as “condições hidrológicas desfavoráveis” começaram a ser críticas já no final de 2013. O governo federal também tem sua parcela de responsabilidade por todo esse quadro, uma vez que a ANA (Agência Nacional de Águas) poderia ter exigido de São Paulo medidas severas nas renovações da outorga do sistema Cantareira.
 
Ainda ontem, a recém-criada Aliança pela Proteção da Água divulgou nota criticando as medidas anunciadas pelo governo estadual, destacando os seguintes pontos.
  • O conjunto de intervenções apresentado não resolve a crise atual, é fazer mais do mesmo, ou seja, novas e caras obras que não contemplam medidas estratégicas para criar segurança hídrica.
  • Até o momento não foi apresentado um plano de contingência que demonstre como vamos chegar em abril de 2015 em situação segura para encarar o próximo período de estiagem.
  • Não foi feita qualquer menção sobre recuperar e cuidar dos mananciais existentes (restauração florestal, ampliação de parques, pagamentos por serviços ambientais)
Imediatismo
O alerta do titular da Sema em 1977 não foi o único desde aquela época. Foram frequentes avisos de outros especialistas, principalmente de um dos maiores estudiosos dos recursos hídricos do Brasil nas últimas décadas do século passado, o geólogo Aldo da Cunha Rebouças (1937-2011), também professor da USP.

Telefonei na manhã desta quinta-feira (13) para Paulo Nogueira Neto —hoje com 92 anos e aposentado da USP—, e perguntei a ele por que o poder público costuma agir como se ignorasse alertas baseados na ciência. Ele apontou dois motivos: “imediatismo e economia malfeita de recursos”.

Apesar de tudo isso, o governo de São Paulo ainda insiste na retórica de que “garante” o abastecimento até março de 2015, minimizando o prejuízo para a integridade dos demais sistemas de produção de água, apontado também no próprio estudo de impacto ambiental do sistema São Lourenço.

Fonte: Blog Maurício Tuffani, Folha de S. Paulo.



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