segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Niteroienses falam sobre suas experiências nas ondas do mar


Luiza Perin e sua companheira de todos os dias: a canoa haviana que ganhou o nome de Guardiã. Foto: Léo Fonseca

Beatriz Cruz

Neste cenário repleto de vidas do ambiente marinho, a bióloga Luiza Perin usou a prática de canoagem para alertar a população sobre a importância de se preservar o ambiente

Foi no primeiro período da faculdade que a bióloga Luiza Perin viu sua relação de amor com o mar ganhar um novo sentido. Nesta época, ela já remava de canoa havaiana quando assistiu a uma aula de um professor que ensinou o que é o plâncton. Já com a canoa no mar, sentiu uma grande emoção ao pensar na riqueza de vidas do ambiente marinho e na sua sintonia com todo aquele universo.

“Plâncton são os seres microscópicos que vivem na água doce e na água do mar. Depois que eu aprendi o que era isso, fiquei muito impressionada. Passei a olhar de forma diferente para esse habitat, onde eu passo tantas horas do meu dia. Isso me fez refletir que ali eu era apenas mais um elemento dentro de uma cadeia enorme de seres vivos. Passei a ver que a cada remada, era capaz de movimentar milhões de vidas. E isso me fez sentir uma energia muito vibrante. Quanto mais eu aprendia sobre a fauna marinha, mais eu ficava apaixonada por todo esse universo. Daí, eu passei a buscar uma causa e lutar pela preservação desse habitat, por um mar limpo e um mundo com mais justiça ambiental”, conta.

Adepta do esporte desde 2005, Luiza usou a prática de canoagem para alertar a população e, principalmente, os governantes, sobre a importância de se preservar o ambiente marinho. Em 2012, ela fez um percurso que nenhuma mulher havia realizado ainda: remou sozinha de Charitas até Ilha Grande, completando 130 quilômetros em 28 horas, sem parar.

“Fiz isso pela preservação dos mares. A iniciativa repercutiu na mídia e eu pude fazer esse apelo. O mar para mim é meu tesouro. Em contato com ele, reflito e acabo tomando decisões importantes para a minha vida. Para mim, é como se fosse uma máquina de pensar”, afirma Luiza.

De dentro do mar, apoiada sobre a canoa, sua companheira de todos os dias, cujo nome é “guardiã”, Luiza lembra como foi a trajetória do bodyboard, sem compromisso na praia de Itacoatiara, até a descoberta do remo em canoa havaiana. Nascida e criada em Niterói, a bióloga teve uma infância bem próxima da natureza, no sítio do avô, em Várzea das Moças. Mas foi na adolescência, na companhia da irmã, que ela passou a ter a praia como roteiro semanal.

“Sempre fui uma criança ‘do mato’. Mas na adolescência, passei a frequentar a praia. Chegava e não aguentava ficar na areia. Pegava logo minha prancha e caía na água. Lembro também de uma outra passagem, já na universidade, quando tive a oportunidade de fazer um curso de mergulho autônomo em Arraial do Cabo. Ao submergir, fiquei fascinada com o que eu vi. Tudo aquilo que eu via nos livros estava ali, desfilando na minha frente. Consegui ter a dimensão de um outro mundo que está dentro do meu mundo. Debaixo daquele marzão imenso, tem uma vida pulsante. Só quem mergulha consegue entender. Antes desse mergulho, eu estava com uma adrenalina enorme, e quando saí da água parecia que eu estava voltando de uma sessão de meditação. Chorei muito de emoção debaixo d’água. Tive que alagar e desalagar a máscara diversas vezes”, revela entusiasmada com suas descobertas.

Quando a canoa havaiana ganhou visibilidade no Brasil, e as competições passaram a ser cada vez mais frequentes, Luiza já remava em águas niteroienses, mas competir nunca foi seu foco.

“Enquanto as pessoas buscavam o lugar mais alto do pódio, eu buscava distâncias maiores. Quanto mais longe remo, mais perto de mim eu chego. Os maiores desafios no remo marcaram passagem de fases cruciais para a minha história. Depois de ter completado o circuito, saía completamente transformada”, confessa Luiza.

A última, ela conta, foi no Havaí, no ano passado, quando viajou com o marido para participar de uma prova com duas etapas de travessia de uma ilha para a outra. A primeira era de 47 quilômetros e a segunda de 51 quilômetros em mar aberto.

“Nunca tinha ido para o Havaí e eram provas muito duras, com ondas grandes e ventos muito fortes. Com uma hora de prova, passei a ser perseguida por um tubarão-tigre, que era três vezes o tamanho da minha prancha. Naquela hora o perigo era tão grande, que eu fiz exatamente o que o instrutor me pedia. A nadadeira dorsal do tubarão batia no meu joelho. Para mim, aquela perseguição durou uma eternidade. Quando eu pensei em desistir, este mesmo instrutor começou a gritar, dizendo que eu era uma mulher muito corajosa e que a Ilha de Molocai, ponto de chegada na competição, estava logo à frente. Fui a última a chegar. Não tenho vergonha de dizer isso. Num universo de cento e tantos competidores, eu ainda fui classificada. Para mim, o último lugar foi um mérito, uma das maiores vitórias, tive que vencer o mais difícil: o medo”, revela Luiza, que hoje comanda uma escola de canoa havaiana na praia de Itaipu.

Já a história de Jorge Todaro com o mar começou um pouco antes, na década de 70. Aluno de um colégio tradicional de Niterói, numa época em que só estudavam meninos nesta instituição, ele sempre ficava para escanteio na hora do futebol. Até que um dia, pegou sua pranchinha de isopor, colocou debaixo do braço e partiu para a Pedra de Itapuca, em Icaraí. Não parou mais. Depois, trocou o “isorpozinho” por uma prancha de madeira e assim foi evoluindo até chegar nas pranchas tradicionais.

“Comecei a ensaiar meus primeiros passos no surfe numa época em que a sociedade ainda via o surfista com muito preconceito. Frequentando a praia, fiz amizade com uma rapaziada boa que também pegava onda: o Rico, que está aí até hoje, o Jiló... E eu não parei mais. Voltava com o pé cheio de ouriço e minha mãe passava a noite tirando”, lembra.

Filho de mãe austríaca e pai italiano, Jorge Todaro caiu na estrada em busca das melhores ondas mundo afora. Olhando para o mural de fotos da parede da sua loja na Região Oceânica de Niterói, ele se recorda com bastante saudade desta época:

“Com essa turma do surfe, fui de fusquinha em busca das melhores ondas. Mas o grande desafio foi aos 17 anos, em Saquarema. Peguei uma onda de mais de quatro metros de altura. Não sabia se eu ria ou se eu chorava”, diverte-se.

Depois, com um pouco mais de experiência, ele encarou ondas ainda maiores fora do país. “Peguei ondas de cinco, seis metros no Peru. Ganhei competições por lá. Tenho uma trajetória dedicada ao mar, até hoje é assim. É uma filosofia de vida. Além do surfe, eu gosto de pescar, mergulhar e velejar. Você nunca vai me ver viajando para algum lugar que não tenha mar. E o que me deixou de pé, depois de tantos momentos difíceis, sem dúvida alguma, foi o surfe”, afirma.

A relação de amor e respeito com o mar foi herdada pelos filhos de Jorge, Caio e Pedro Todaro.

“Guardo memórias maravilhosas da minha infância. Tive muita qualidade de vida por conta da história do meu pai com o surfe. Ele costuma dizer que já nascemos dentro d’água. E é verdade! Hoje, além de ser um lazer estar no mar, é dele que eu também tiro o meu sustento com as aulas de surfe em Itaipu. Filho de peixe, peixinho é”, brinca Caio.

 "... a vontade de estar junto ao mar, sob as ondas, falou mais forte, e ele decidiu enfrentar o medo e, literalmente, mergulhar de cabeça neste desafio. Para isso, ele se inscreveu no Projeto Grael e se candidatou para um programa de educação ambiental voltado para a coleta e o monitoramento do lixo flutuante da Enseada de Icaraí e de Jurujuba". Sobre Hugo Marins, 15 anos.


Diferentemente de Caio e Pedro, Hugo Marins, de 15 anos, não é “filho de peixe”. E apesar de morar em Jurujuba, região com tradição pesqueira, cresceu com medo e admiração pelo mar. Mas a vontade de estar junto ao mar, sob as ondas, falou mais forte, e ele decidiu enfrentar o medo e, literalmente, mergulhar de cabeça neste desafio. Para isso, ele se inscreveu no Projeto Grael e se candidatou para um programa de educação ambiental voltado para a coleta e o monitoramento do lixo flutuante da Enseada de Icaraí e de Jurujuba.

Hugo explica que escolheu este programa porque além de querer fazer algo em prol da preservação dos mares, sabia que teria que ficar a bordo de uma embarcação francesa responsável pela coleta. Hoje, ele tem mais uma certeza: “Não me vejo trabalhando longe do mar”, diz.

Para o jovem, vencer o medo do mar ele trouxe uma lição de vida também. “Quero ajudar na preservação desta natureza que é tão importante para a vida de vários animais que vivem nesse ambiente. Fazendo parte deste projeto, vejo o quanto a educação ambiental é importante para que as próximas gerações possam desfrutar desta beleza que ainda temos. O nosso futuro depende da nossa ação hoje. Só depende da gente mesmo construir um futuro melhor”, conclui.

Fonte: Revista O Fluminense





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