domingo, 6 de fevereiro de 2011

Aos 19 anos, a velejadora Martine Grael segue os passos do pai, Torben, e busca o sonho da medalha olímpica em 2012

Martine Grael, velejadora da nova geração da família Grael
Na infância, Martine Soffiatti Grael odiava brincar de bonecas. Sua paixão era subir em árvore e jogar bola. Mas somente até os 5 anos. Aos 6, uma outra brincadeira começou a lhe despertar a atenção. Sua mãe, Andrea Grael, é quem conta: "Eu e um amigo criamos uma escolinha de vela no Rio Yacht Club e a Martine, assim como as outras crianças do clube, participava. Ela adorava se escorar no barco até encostar o cabelo na água para se refrescar". Andrea não sabe dizer ao certo se a filha brincava velejando ou se velejava brincando.


Além das aulas na escolinha, que se dividiam com passeios pela enseada de São Francisco, em Niterói - onde mora -, Martine sempre esteve a bordo de veleiros da família. "Ela enjoava muito nos barcos grandes, mas nunca recusava o convite de voltar a fazer esses passeios", conta Andrea. Talvez um dos motivos estivesse no DNA da família. Além da mãe velejadora, Martine é filha de Torben Grael, campeão olímpico e mundial de vela e vencedor da regata de volta ao mundo.

O empurrãozinho veio do pai, então? Martine é rápida: "Foi escolha minha. Mas tendo um ídolo em casa como o papai, incentivo melhor não há. Sigo essa carreira pelo sonho de conseguir uma medalha olímpica". O sonho teve início em 2001, quando tinha 10 anos. Norteada e inspirada pelos prazeres de velejar, ela deu novo rumo às brincadeiras e aos passeios despretensiosos. "Comecei a competir na classe Optimist, para crianças até 15 anos", conta. Três anos depois, se tornou campeã brasileira da classe e, em 2006, bicampeã.

Em seguida, passou para a classe 420, voltada para aqueles que desejam se desenvolver no esporte. "Em 2008, fiquei em 4º lugar no Mundial de Atenas e fui campeã brasileira nessa classe com a minha primeira parceira, a Daniela Adler. Foi dela que ouvi as palavras que, para mim, melhor definem o que é velejar: ‘É mais que um esporte. É um estilo de vida’."

A segunda parceria surgiu no ano seguinte, em 2009, desta vez com Kahena Kunze. "Ao seu lado, levantei o troféu de campeã mundial da juventude, em Búzios", lembra a atleta. Meses depois, decidiu se mudar para a classe olímpica 470, seguindo fielmente o caminho que tinha imaginado para si como velejadora quando ainda tinha 10 anos. "Ela é muito talentosa, dedicada e focada. Essas são as principais características dela como velejadora", diz o pai, Torben. "Mas os primeiros técnicos sofreram com a Martine pois, às vezes, ela ficava muitíssimo irritada quando as coisas não saíam como o planejado."

Rumo às Olimpíadas. Na 470, Martine passou a treinar no Rio Yacht Club, em Niterói, local onde viveu boa parte de infância e para onde se dirige até hoje, diariamente, de bicicleta, para treinar. Foi nesse clube que iniciou a parceria de sucesso com a medalhista olímpica Isabel Swan, no final de 2009. "Admiro muito a alegria de viver e a bondade que a Martine tem com o próximo. Ela tem muita garra e capacidade de aperfeiçoamento. É muito esforçada, dedicada e tem um talento natural", diz Isabel, confirmando as palavras de Torben.

Juntas, as duas foram campeãs da Semana Internacional de Vela do Rio de Janeiro e, em 2010, do Mundial Militar de Vela. Também conquistaram a 7ª colocação no Mundial de Vela e a 4ª no Miami Sailing Regatta, no ano passado. O americano Larry Sutter, que treina a dupla há um ano, afirma que a grande diferença entre Martine e outras aspirantes olímpicas "é o fato de ela ter o foco de ganhar a medalha de ouro". A maioria dos velejadores, diz, se sente feliz somente em estar competindo. Ainda segundo o treinador, como a atleta cresceu vendo o pai vencer tantos torneios, para ela é normal ganhar um medalha de ouro. "As expectativas de Martine para as Olimpíadas são imensas e ela persegue assiduamente esse sonho."

De olho nos jogos Olímpicos de 2012 em Londres e também nos de 2016, no Rio de Janeiro, a dupla se prepara há um ano para alcançar sua meta. "Nossa preparação para 2012 teve início há exatamente um ano, quando fomos para o nosso primeiro campeonato internacional de 470 juntas, em Miami", conta Martine. As duas acabaram de voltar da cidade americana, onde participaram da Miami Rolex Regatta. "O torneio começou no dia 24 de janeiro e terminou no dia 29. Ficamos em 7º lugar. É uma competição de altíssimo nível. Treinamos na raia olímpica e esse foi o ponto alto do nosso treinamento", explica a jovem.

Ao todo, foram 11 regatas, que duraram entre quatro e sete horas. "Tudo varia em função das condições do vento", diz Martine. Segundo ela, houve muitas "regatas-treino", já que todos os participantes - 700, de 50 países - do campeonato estavam lá. Em setembro passado, a dupla brasileira melhor ranqueada na classe 470 também treinou na raia olímpica de Weymouth, na Inglaterra. "Nós fomos convidadas, em agosto, a participar do workshop do treinador ucraniano Victor Kolavenko. Somente 15 duplas do mundo todo, entre homens e mulheres, foram convidadas", lembra Martine.

De volta ao Brasil, a atleta já está treinando completamente concentrada na Pré-Olímpica Brasileira de Vela, que acontece este mês, e no Mundial, em dezembro, em Perth, Austrália.

A rotina desta moça de 19 anos inclui, ainda, acordar às 8h, fazer exercícios aeróbicos, alongamentos e musculação, treinar e cozinhar a própria comida quando está viajando para garantir uma alimentação balanceada e saudável e viver longe da família e dos amigos. Ela ainda tem tempo para cursar a Faculdade de Engenharia Ambiental na Universidade Federal Fluminense. Tanta dedicação e abdicação já fazem de Martine uma vencedora. "É claro que velejar não é 100% prazer e está longe disso, mas sempre que olho para trás não tenho vontade de mudar o que fiz até hoje. A vela proporciona uma experiência de vida inigualável", diz. "Sei costurar, lavar, cozinhar e planejar minha sobrevivência. Além disso, aprendi a ganhar e perder e a cultivar amigos em todos os cantos do mundo. Sei me virar em um lugar estranho e nas adversidades."

Fonte: Estadão

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