sábado, 14 de março de 2015

PAÍS PRECISA DE MAIS INVESTIDORES SOCIAIS


Projeto Grael. Foto Mariza Formaginni.


Dizer que as ONGs não são sustentáveis por depender de doações é como dizer que as empresas não são sustentáveis por depender de vendas
 
por

Se no Brasil 24% das empresas fecham antes de dois anos de funcionamento (de acordo com o Censo Sebrae de 2013) e nos EUA metade não resiste a mais de quatro anos (segundo média de diversos estudos), por que insistimos em dizer que as ONGs não são sustentáveis, mesmo sabendo que há algumas com mais de cem anos de existência?
 
Se no Brasil 24% das empresas fecham antes de dois anos de funcionamento e nos EUA metade não resiste a mais de quatro anos, por que insistimos em dizer que as ONGs não são sustentáveis, mesmo sabendo que há algumas com mais de cem anos de existência?

A definição de sustentabilidade financeira não é tão complicada assim: uma empresa, uma organização social ou mesmo um governo é sustentável se recebe mais do que gasta. Quando isso não acontece, a consequência é clara: empresas quebram e organizações sociais fecham.

A entrada de recursos para uma ONG se dá por meio de doações; para uma empresa, por meio da venda de um produto ou serviço. Ambas são receitas “válidas” — a única diferença está no fato de que as doações são feitas para beneficiar terceiros, e as compras, o próprio comprador. Dizer que as ONGs não são sustentáveis por depender de doações é como dizer que as empresas não são sustentáveis por depender de vendas.

O desafio de sustentabilidade não se deve a escolha do modelo ONG. A maioria delas é ou deveria ser sustentável, considerando que doação é uma fonte de receita “legítima”. Em vez de insistir na lógica de receita comercial e propor soluções inadequadas para os desafios do terceiro setor, deveríamos investir no crescimento de uma cultura de filantropia e doação. Cada um de nós pode se engajar destinando uma pequena parcela de sua renda ou patrimônio para desafios sociais.
 
Em vez de insistir na lógica de receita comercial e propor soluções inadequadas para os desafios do terceiro setor, deveríamos investir no crescimento de uma cultura de filantropia e doação.


É importante frisar que o ponto aqui não é defender que as organizações sociais são todas financeiramente sustentáveis — nem as empresas o são. Mas sim confrontar a ideia que ONGs tenham que ser sustentáveis somente por meio da geração de receita comercial.

O real desafio para qualquer organização é o de ter fonte de renda que seja previsível, diversificada e maior do que os custos. Para uma ONG, ter um único doador é tão ruim quanto para uma empresa ter um único comprador. Seguindo a lógica, ter uma base de pequenos, médios e grandes doadores, nacionais e internacionais, pessoas físicas e jurídicas, é tão bom quanto uma empresa ter uma base diversificada de compradores.

Há ainda outros dois fatores que desequilibram o campo de comparações entre essas duas formas de organização.

O primeiro é o de que há muito mais dinheiro para investir no mundo “comercial” do que no mundo “social”. A diferença na ordem de magnitude fica evidente ao comparar os valores mencionados nos mercados de ações e crédito (trilhões de reais) a qualquer estimativa do setor social (na SITAWI utilizamos R$ 30 bilhões).

O segundo, sobre o qual temos ingerência, é o de que a sociedade — isto é, nós e você — aceita pagar mais do que o “custo” por uma lata de água carbonatada com açúcar e químicos cancerígenos ou qualquer outro produto. É com essa diferença entre receita e custo que as empresas atraem bons profissionais com salários adequados, investem em marketing, inovação e atendem mais consumidores, o que gera mais recursos para fazer a roda girar, além de gerar condições de inovação e produção de conhecimento, necessários para qualquer setor avançar.

No entanto, de maneira geral, quando financiamos uma intervenção social, não aceitamos pagar mais do que seu custo direto, a sopa ou o abrigo para um sem-teto. A consequência óbvia disso é que as organizações sociais têm profissionais menos qualificados do que o ideal, investem pouco, têm dificuldade para inovar e não ganham escala.
 
"... a sociedade — isto é, nós e você — aceita pagar mais do que o “custo” por uma lata de água carbonatada com açúcar e químicos cancerígenos ou qualquer outro produto. É com essa diferença entre receita e custo que as empresas atraem bons profissionais com salários adequados, investem em marketing, inovação e atendem mais consumidores, o que gera mais recursos para fazer a roda girar, além de gerar condições de inovação e produção de conhecimento, necessários para qualquer setor avançar.

No entanto, de maneira geral, quando financiamos uma intervenção social, não aceitamos pagar mais do que seu custo direto, a sopa ou o abrigo para um sem-teto. A consequência óbvia disso é que as organizações sociais têm profissionais menos qualificados do que o ideal, investem pouco, têm dificuldade para inovar e não ganham escala".

Se acreditamos que nem o mercado nem o governo resolverão todos os problemas, precisamos de uma sociedade civil engajada e com organizações fortes e soluções criativas.

Caso queira ajudar a criar uma cultura de doação mais sólida e viabilizar a transformação social, faça a sua parte: quando for dar mesada ao seu filho(a), divida-a em três envelopes: um para ele(a) poupar, outro para gastar e um terceiro para doar. Caso queira fazer algo você mesmo, doe, doe mais e doe melhor. Sinceramente, esperamos que faça ambas.

Leonardo Letelier é diretor-executivo da SITAWI Finanças do Bem (instituição de financialmento social) e Beatriz Cardoso é diretora executiva do Laboratório de Educação

Fonte: O Globo


-----------------------------------------------------
 
LEIA TAMBÉM:
 
Novo marco regulatório cria regras para parcerias entre governo e sociedade civil
O país da ‘burrocracia’
Novo Marco Regulatório traz mais transparência para as parcerias entre o Estado e as Organizações da Sociedade Civil
O Brasil seria melhor sem as ONGs?
OSCIPs, denúncias e novas burocracias. A solução é o marco legal
As florestas dos EUA, democracia e gestão pública no Brasil
Debatendo a questão das ONGs
Convênio com ONGs terá controle maior
ONGs divulgam carta aberta à presidente Dilma
Aldo Rebelo: "Como ministro não pretendo fazer convênio com ONGs"
As ONGs e o patrimonialismo
Esclarecimento: Projeto Grael nunca recebeu recursos do Programa Segundo Tempo
OAB lança na internet o Observatório da Corrupção
O lado conservacionista das empresas brasileiras

EXEMPLOS DE AÇÕES E CONTRIBUIÇÕES DE ONGs PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

Projeto Grael
Especialistas em esporte educacional visitam o Projeto Grael 
Fotos de uma velejada dos alunos do Projeto Grael na Baía de Guanabara
Projeto Grael é destaque em evento de excelência em gestão
Iniciativas do Projeto Grael na prevenção do lixo flutuante da Baía de Guanabara

Outras ONGs
ATLETAS PELO BRASIL lança “I Relatório Cidades do Esporte”
Reflorestar represas aumenta reserva de água em 50%, diz ONG
Emissão de gases de efeito estufa cresceu 7,8% no país
ISA lança mapa Amazônia Brasileira 2014 no Congresso Mundial de Parques
Por que desmatar 79% da área de mananciais secou São Paulo
Até quando o Brasil ficará de costas para o mar?
Metade das bicicletas em Copacabana é usada para locomoção
Encontro de ambientalistas discutiu estratégias de conservação em Niterói
Com a maior concentração de botos, Mangaratiba lança projeto de avistamento
 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Contribua. Deixe aqui a sua crítica, comentário ou complementação ao conteúdo da mensagem postada no Blog do Axel Grael.